Cena 1
(Na cozinha. Bater de loiça. A Mãe, contente, canta ou assobia. Barulho de portas. Passos.)
Jacob – Mãe! Cá estou eu! E com uma destas fomes!
Mãe– Óptimo, Jacob. Estou agora mesmo a preparar umas sandes.
Jacob – A Catarina veio comigo. E também está com fome. Eu disse-lhe que tinhas comprado torresmos.
Mãe – Catarina, onde é que te meteste? Entra!
Catarina – Viva, D. Mariana.
Mãe – Olá, Catarina, fica à vontade. Sentem-se. Querem chá com sumo de laranja?
Catarina – Obrigada.
Jacob – Espera, Catarina, eu sirvo-te.
Catarina – Não está nada mau este pão com torresmo.
Mãe – Foi divertido no parque?
Crianças– Mhm-mhm.
Mãe(A rir.) – Vocês empanturram-secomo se não comessem nada há dias. Estão a abrir-me o apetite. Vou fazer um pão para mim. Pronto, já está. Vêm cheios de calor, meninos. Andaram a correr?
Jacob– Primeiro fizemos de Índios. Depois, de artistas de circo ao pé do Toni… Depois, fizemos também de extraterrestres verdes que conseguiam cheirar tudo, principalmente torresmos. O Rudi também estava. Quis trazê-lo, mas ele diz que os torresmos são muito gordurosos
Mãe– Não é nada bom para a linha… Mesmo assim, quem quer mais?
Catarina– Eu, por favor.
Jacob– Eu também.
Mãe – E eu também… O Carlitos esteve lá?
Catarina– Não. Ele é muito aborrecido.
Jacob – Com ele não se pode fazer nada.
Mãe – Por ser aborrecido?
Jacob– Nem imaginas como ele é! Não gosta de nada.
Mãe– Não gosta de nada? Foi ele que disse isso?
Jacob– “Não gosto disto, não gosto daquilo…”.
Catarina– O Carlitos é tão… diferente, sabe, D. Mariana. Ou se gaba tanto, que só de o ouvirmos até nos massacra os ouvidos, ou então está aborrecido e não quer participar em nada. Fica sentado a dizer: “Não gosto de nada disso”.
Mãe– E quando ele conversa, o que é que diz?
Jacob – Oh, tudo e mais alguma coisa. Quanto é que o pai ganha, para onde é que vão nas férias, que já foi aos esquimós ou lá onde foi, quantos CDs é que já tem…
Catarina– 38…
Jacob – E que pode ver na televisão todos os filmes policiais que quer…
Mãe – Hum…
Catarina– E que nós somos uns coitados porque não podemos. Na turma, já ninguém lhe liga. Por ele ser tão parvo, a Susi até já disse que nunca mais o deixa copiar por ela. E que também nunca mais lhe vai dizer as respostas.
Jacob– Na escola, anda sempre a fazer asneiras e depois a Professora chama a mãe. Mas ela zanga-se de cada vez que tem de lá ir, porque perde um dia no escritório…
Catarina– Ele está a ficar cada vez pior. A única coisa que consegue fazer é o pino! É o único de nós todos. É capaz de fazer o pino e ficar a andar às voltas. Claro que faz isso quando e onde lhe apetece. A Susi sugeriu que, quando ele voltasse a fazer o pino, nós devíamos combinar e olhar todos para o outro lado.
Mãe– Então não me admira nada, coitado do rapaz. Se ninguém gosta dele, como é que ele há-de andar contente?
Jacob– Vamos passar a andar atrás dele? Mãe, eu já não o aguento! Prefiro outra pessoa qualquer. Até prefiro o Toni, embora ele só consiga dizer ããããã… (Catarina ri baixinho.)
Mãe– Jacob!
Jacob – Não digo isto por mal. Eu gosto do Toni. Mas, pronto, ele só faz ããããã…
Mãe – O Toni é uma criança deficiente, e não consegue falar como uma criança normal.
Catarina – Mas nós agora já sabemos o que ele quer dizer com ããã. Ele di-lo de diferentes formas. Hoje, quando representávamos o circo, ele acenou com a cabeça e gritou ããã e descobrimos que ele queria dizer “Outra vez!”.
Jacob– Isso foi quando o Rudi fez de leão e tu de domadora.
Catarina– É! Esse foi o número que mais divertiu hoje o Toni.
Mãe – Então vocês… Vocês brincam ao circo para o Toni?
Jacob– Achas esquisito?
Mãe(Apressadamente.) – Não, não. É que eu pensava que vocês o visitavam apenas de vez em quando e que só brincassem e falassem com ele. Mas fazerem circo…
Jacob– É difícil brincar com ele, porque ele tem de estar sempre no carrinho e não pode fazer nada. No fim de cada número, bate palmas. Foi a Susi que lhe ensinou. E às vezes agarra uma bola, quer dizer, atira-se a bola mesmo para o colo dele e depois ele agarra-a. Atirar a bola é que já não é capaz de fazer.
Mãe– Sabes porque é que eu primeiro me admirei que vocês fizessem coisas engraçadas em frente de uma criança deficiente, incapaz de andar e de correr? É que o Toni nunca há-de conseguir fazer isso.
Jacob – Mas ele gosta de ver. Se não, não se ria. Quando vê, diverte-se. Rir ele sabe.
Catarina– A princípio, a porteira do prédio ralhou connosco. Viu-nos através da janela do pátio e indignou-se por sermos insensíveis e fazermos coisas diante do Toni que ele, coitado, não consegue fazer. Nós ficámos muito assustados e queríamos ir embora, mas o Toni começou a choramingar e a mãe do Toni veio logo a correr cá abaixo e ouviu tudo. Fez festas ao Toni e disse: “ – Oh, eu, por exemplo, não sei tocar trompete, mas fico contente quando alguém toca para mim. Continuem com o vosso circo. Eu fico contente quando o Toni se diverte.”
Jacob– Ele fica mesmo contente, por isso é que gostamos tanto de ir lá. Porque ele gosta. O Rudi anda agora a treinar um número de cambalhotas.
Catarina– E a Susi, outro com bolas.
Mãe – O Carlitos não ficaria bem no vosso programa, já que sabe fazer o pino? … (Pequena pausa.) Ah?
Catarina– Bem…
Jacob – Primeiro, teríamos de lhe perguntar se ele queria mesmo vir…
Catarina – Seria uma boa oportunidade para ele se exibir…
Mãe – Teria principalmente uma oportunidade de dar uma grande alegria ao Toni! Gostava depois de ver se ele ainda diria: “Não gosto de nada!” Aquele que se sente útil e que dá uma alegria a outro decerto já não pode dizer: “Não gosto de nada!”
Catarina – Bem, não sei se o Carlitos vai deixar que o levemos até lá…
Mãe– Então, e se vocês precisassem mesmo dele?
Jacob– Será que ele vai acreditar que precisamos mesmo dele? Da maneira como nos temos portado com ele até agora…
Mãe– Jacob, vou dizer-te uma coisa, uma coisa difícil de compreender. E a ti também o digo, Cati. Quando alguém não gosta de nada – não interessa se é uma criança ou um adulto – quando alguém diz que não gosta de nada, isso é um grito de socorro. É alguém que pede socorro dessa maneira por se sentir mal. É ainda muito pior do que o Toni no seu carrinho, já que o Toni consegue alegrar-se com alguma coisa e é capaz de o demonstrar. Dessa forma, ele também vos dá alegria. Não é verdade que, quando o Toni fica contente, isso também vos faz felizes?
Crianças– Pois faz!!
Mãe – Quando o Carlitos diz: “Não gosto de nada!” está a querer dizer-vos: “Ajudai-me, por favor. Estou triste porque ninguém precisa de mim. Ninguém olha para mim.” Se vocês precisarem do Carlitos, se ele tiver a oportunidade de proporcionar alegria a outra pessoa, ele vai mudar. Não imediatamente, mas com o tempo. Não há-de precisar mais de se exibir nem de aborrecer os outros. Vai tornar-se diferente. Mas têm de ter paciência com ele. Eu, no vosso lugar, tentava.
Jacob– Mesmo que ele no início seja arrogante?
Mãe– Mesmo assim! Têm de arriscar. E não dar muita importância a isso.
Catarina – Eu faço-te sinal, Jacob, quando o Carlitos estiver a ser arrogante. Assim, não precisas de te zangar.
Mãe– Tens uma boa amiga, Jacob! (Catarina ri baixinho.)
Jacob– Bem, podemos tentar…
Cena 2
(Recreio da escola. Barulho do intervalo. Campainha.)
Jacob– Bem, Carlitos, fica combinado. Hoje vens connosco ao Toni.
Carlitos– Não! Acho que não vou gostar.
Catarina– Se vais gostar ou não, isso não interessa agora. Tens de vir, porque nós precisamos de ti.
Jacob– És o único que sabe fazer o pino e dar voltas.
Catarina – Podes indicar-nos outra pessoa que saiba andar de pernas para o ar?
Carlitos– Não!
Jacob – Então, estás a ver?
Catarina– Tu não tens de gostar, Carlitos, mas o Toni vai adorar. Ele nunca na vida viu ninguém que saiba andar e fazer o pino.
Jacob– Temos de explicar primeiro ao Carlitos como é que ele sabe que o Toni está a gostar, Cati.
Carlitos– Eu não sou parvo!
Catarina– Mas o Toni… bem, o Toni só sabe dizer ããã. Por isso, quando ele se rir e abanar a cabeça e disser ããã, quer dizer: “Outra vez!” E tu tens de repetir o número!
Carlitos – E quando ele não gosta?
Jacob – Então torce a boca e diz ããã.
Catarina– Mas ele vai gostar, vais ver. Nunca viu um número com esta categoria… (Música no fim desta cena.)
Cena 3
(Pátio. Crianças a rir.)
Carlitos(Em voz baixa.) – Este é que é o vosso Toni? Ora bolas! Tem cá um aspecto…
Catarina (Em voz baixa.) – Uma pessoa habitua-se. Espera quando ele se rir. De um momento para o outro, fica com outro aspecto. Fica mesmo querido!
Jacob– Minhas senhoras e meus senhores, caríssimo público! Segue-se agora o ponto alto do nosso programa de gala de hoje. Susi, tambor, por favor! (O tambor rufa.) Uma salva de palmas para Mister Carlitos Carlitovitch! (Aplausos.)
Carlitos– Bom, está bem. Já que aqui estou… Upa!
Crianças– Oooh… (Primeiro silêncio, depois aplausos.)
Toni – Ããã.
Carlitos– O que queres dizer, Toni? É comigo?
Toni– Ããã.
Catarina– Ele quer dizer: “Outra vez!”.
Carlitos– Mas com certeza! (Silêncio. Palmas.)
Catarina – Olha, Carlitos, o Toni está a aplaudir-te. Tens de fazer uma vénia! Nós fazemos sempre uma vénia como artistas de circo a sério!
Toni – Ããã.
Jacob– Logo vi que ia gostar.
Carlitos – Outra vez, Toni? Sim? Está bem, olha para aqui…
Porteira – Agora é que eu estou pasmada! Ele faz o pino e anda!
Catarina – Esta é a porteira, Carlitos. Traz-nos sempre sumo.
Porteira– Ele até abana os pés. Assim bem não me admira que o Toni se divirta. (Aplausos.) Anda cá, deixa-me olhar para ti. Tu és novo. Como te chamas?
Carlitos– Carlitos.
Porteira– Então és o Carlitos. Tens mesmo jeito para palhaço. E é bonito que te tenhas esforçado por causa do Toni…
Carlitos – Eu não me esforcei.
Porteira– Está aqui o vosso sumo, meninos. Peguem no tabuleiro. Têm de o segurar para o Toni poder beber também.
Catarina– Eu faço isso.
Carlitos – Dá cá, Cati. Eu faço isso. Aqui tens, Toni, bebe. Anda, põe as mãos em volta do copo. Segura tu sozinho. Anda, tenta… Cati, olha! Ele está a tentar!
Catarina– A mãe treina com ele todos os dias, mas é preciso ter paciência.
Carlitos – Muito bem, Toni. Outro gole… Sim, nós seguramos os dois no copo. Pronto. Cati, ele agora não parece tão… tão… quero dizer, parece muito querido!
Catarina– Porque está contente, Carlitos.
Carlitos– Achas que ele ia gostar de um número de palhaços com um acordeão pequenino a chiar horrivelmente? Ou um número de arcos? Mas eu iria precisar de uma outra pessoa.
Catarina– E essa pessoa precisa de saber fazer muita coisa?
Carlitos– Claro que não! Só tem de segurar no arco e gritar “Upa!”
Catarina– Eu podia fazer isso lindamente… se tu quisesses fazer comigo…
Carlitos– Claro que… que eu ia gostar muito...
(Alguns compassos de música, no final.)
Lene Mayer-Skumanz (org.)
Jakob und Katharina
Wien, Herder Verlag, 1986
(Tradução e adaptação)
A escadaria das fadas
Mohamed Ben Tahir foi um dos emires que governaram a formosa cidade espanhola de Valência na época em que pertencia aos mouros.
Era um homem de meia-idade, moreno e de olhos profundos, usava um turbante e vestia um albornoz branco.
O emir tinha uma filha chamada Aixa, uma jovem de grande beleza, a quem o povo de Valência apelidara de «Flor dos Jardins» por gostar muito de correr pelos campos e de respirar o perfume das flores e dos bosques. O emir adorava a filha e dava-lhe todas as riquezas que podia. Os seus inúmeros tesouros pareciam-lhe pouco para a sua querida filha.
Porém, Ben Tahir sabia muito bem que as riquezas que lhe dava não chegavam para a educar. Aixa tinha de ter tanto de riquezas como de sabedoria, por isso chamou um sábio para ensinar a princesa. O professor também era árabe e usava um chapéu em cone, vestia um traje estrelado e tinha uma respeitável barba branca como todos os magos. A jovem, que tinha enorme vontade de aprender, acolheu o sábio com grande afecto. No entanto, à medida que foi aprendendo e ficando mais inteligente, a formosa jovem tornava-se mais triste e insociável.
Todas as pessoas da cidade começaram a notar a mudança de Aixa. O pai também estava preocupado e bastante aflito com o comportamento da filha.
— O que tens, Aixa? — perguntava-lhe.
— Nada, pai — era sempre a resposta.
Nem as longas viagens nem os presentes que lhe oferecia diariamente a animavam. Continuava a passear sozinha pelos jardins ou a olhar pela janela.
— O que poderei fazer para te ver sorrir? — perguntou carinhoso o emir.
Aixa suspirou profundamente e cravou os olhos nos degraus da escadaria talhada na rocha que se viam da janela.
Ben Tahir percebeu. Mandou vir o mago à sua presença e pediu ao professor que lhe dissesse o que sabia da tristeza de Aixa.
— Oh, poderoso senhor! A tristeza da tua filha não tem cura.
— Se és assim tão sábio, deves saber como curá-la!
— Sei o que tem a tua filha, porém é-me impossível curá-la — exclamou o mago. — Quer ver o que existe no cimo da escadaria das fadas, esses degraus formados no rochedo em frente da janela do seu quarto.
— Pois que vá — disse o emir decidido.
— Sim, grande senhor — continuou o mago — mas isso é impossível. Cumprindo a tua vontade, transmiti-lhe toda a minha sabedoria mas, à medida que a sua inteligência se foi desenvolvendo, o coração foi adormecendo. Sabe mais do que os velhos sábios, mas esqueceu-se de amar. Sabes o que isso significa? Quer dizer que a sua sabedoria não lhe serve de nada, porque lhe falta o amor. E como só vive para estudar, chegou ao limite de tudo o que se pode saber e agora sente um enorme vazio. O desejo de Aixa é tornar-se fada, desejo que nenhum humano consegue realizar, e é por essa razão que está triste.
— Se ela se sentir mais feliz por se aproximar da escadaria das fadas, porque havemos de privá-la disso?
— Aixa não deve sentir curiosidade. Isso é próprio das pessoas comuns. Aixa não pode subir a escadaria das fadas.
O emir, enfurecido com o ancião, exclamou:
— Fiz-te vir de um país longínquo para me ajudares a tornar feliz a minha filha, e afinal o que conseguiste foi entristecê-la ainda mais, pois educaste-a fazendo-lhe desejar coisas impossíveis. E não te dei tudo quanto me pediste? Porque deambulas tu pelos jardins, cabisbaixo e resmungando sempre?
— A minha tristeza não se relaciona com a maneira como procedeste comigo. Sinto-me velho e estou convencido de que não viverei muito mais tempo. Todos temos de morrer, mas tenho pena de não tornar a ver o meu país.
— Queres dizer que pretendes ir-te embora? É a liberdade que estás a pedir-me?
— Senhor — ripostou o sábio — a liberdade é o maior bem que podemos gozar na terra.
O emir ficou de novo pensativo, passeando pelo luxuoso salão. De repente, deteve-se diante do sábio e exclamou:
— Bem! Por mim, não há o menor inconveniente, mas como sei que é por minha filha que vieste, tem de ser ela a conceder-te licença para partires.
Ben Tahir tocou o gongo e no mesmo instante apareceu um gigantesco servo.
— Diz a Aixa que venha imediatamente.
Depois de posta ao corrente do que se passava, a jovem exclamou angustiada:
— Não, pai, não é possível que o meu mestre parta. Só ele tem o remédio contra a minha tristeza e, para fugir ao cumprimento do seu dever, pede-te que lhe dês a liberdade. Ele possui o segredo da escadaria das fadas e não quer revelar-mo. Poderia converter-me na mais feliz das pessoas e nega-me essa grande alegria.
— És um impostor! — gritou o emir, sacudindo o sábio.
Aixa sentiu-se protegida e prosseguiu:
— Esse homem conhece a palavra mágica que abre o caminho das fadas, a palavra que leva à porta do palácio das fadas. Quem conseguir entrar nele será o ser mais poderoso e mais feliz da terra. Porque não me revela ele a palavra?
— Fala! — ordenou Ben Tahir.
— Essa palavra — disse o mago — pode conduzir à infelicidade eterna. A escada não pode ser subida pelos humanos.
— Já te disse — exclamou o emir com decisão — que, se é desejo de minha filha subir a escadaria, subi-la-á. Quero que seja feliz, que viva contente e ria de novo.
Perante as exigências do emir, o mago não se atreveu a protestar mais, e disse, com um encolher de ombros:
— Tu assim quiseste, emir. Devo porém avisar-te de que é preciso que tanto tu como tua filha obedeçam a todas as ordens que vos der, já que o atraso de um segundo no cumprimento das mesmas poderá ser fatal. Ficaríeis sepultados no fundo da misteriosa montanha.
— Cumpriremos as tuas ordens — disseram Aixa e o pai.
Na noite seguinte, encontraram-se à meia-noite e dirigiram-se para perto da escadaria das fadas. O velho sábio não parava de olhar as estrelas, à espera de que ocupassem a posição favorável. Nesse momento, o galo cantou.
— Utiliza imediatamente o poder mágico que conduz ao país das fadas — ordenou o emir.
O ancião, sem fazer muito caso das palavras do emir, acendeu uma tocha e pegou numlivro muito velho e de páginas amarelecidas e letras esquisitas. Colocou um anel sobre a primeira página e começou a ler, lentamente, a meia-voz. Quando terminou a leitura da primeira página, produziu-se um tremendo ruído no seio da montanha.
Aixa e seu pai estremeceram, enquanto o ancião, como se nada tivesse ouvido, continuava.
A escadaria pareceu iluminar-se e a jovem começou a subi-la.
O mago disse ao ouvido de Ben Tahir:
— Sobe também. Verás algo de maravilhoso.
O pai de Aixa deu início à subida, e o velho voltou à sua monótona leitura.
Ao terminar a terceira página, ouviu-se outro ruído, ainda mais forte do que o primeiro.
Foi então que a jovem e o emir viram desenhar-se no rochedo a forma de uma porta arqueada, que se foi abrindo lentamente, à medida que o mago pronunciava as palavras cabalísticas do misterioso livro.
Quando na rocha se abriu o espaço suficiente para dar passagem a um homem, Aixa e Ben Tahir penetraram no Paraíso das Fadas.
Pai e filha pararam perplexos. Ante os seus olhos acostumados às maiores magnificências, deparava-se algo com que jamais podiam ter sonhado, algo de tão fantástico que só podia ser uma das mais maravilhosas fantasias do longínquo Oriente. Ali, não longe deles, estavam uns seres quase transparentes, que olhavam os recém-chegados com um estranho sorriso nos lábios. Eram as fadas daquele incomparável paraíso.
Uma delas fez um gesto a Aixa.
— Vem — disse. — Estávamos à tua espera...
— Que maravilha! — repetia Aixa continuamente.
— Parai! — gritou o mago.
A sua voz era tão imperiosa que a jovem ficou por momentos no umbral do palácio.
— Vem! — insistiu a fada.
— Regressai! — repetiu o mago.
Aixa, acostumada como estava a obedecer, voltou para trás, e o pai pousou-lhe uma mão no ombro, satisfeito por ver que a luz e a alegria lhe tinham voltado ao rosto. Em seguida, a porta fechou-se com um estrondo, obedecendo a umas palavras mágicas do sábio.
A jovem estava felicíssima; beijava o pai, abraçava o velho mago e repetia mil vezes que não existia na terra ninguém mais feliz do que ela. Pelo contrário, o velho mestre mostrava-se mais sombrio do que nunca.
Quando regressaram ao palácio, o velho mago dirigiu-se a Ben Tahir e disse:
— Poderoso emir, eu cumpri a minha promessa. Cumpri agora a vossa, permitindo que regresse à minha pátria, para morrer sob o céu que me viu nascer.
— Se a minha filha consentir, serás livre.
Aixa estava tão contente que acedeu a dar a liberdade ao seu velho mestre, mas com a condição de que este lhe deixasse o livro misterioso e o anel que tinha o poder de abrir o palácio das fadas.
O mago não pensou duas vezes e entregou-lhos.
— São teus. Guarda-os como recordação de quem iluminou a tua inteligência com a luz da sabedoria. Porém, serve-te deles com cuidado, não abusando do seu ilimitado poder. Não esqueças que na vida está também a morte.
Depois de ditas estas palavras, o ancião deixou o palácio do emir e partiu imediatamente para a sua terra, carregado de belos presentes que Ben Tahir lhe dera como recompensa por ter devolvido a felicidade à filha.
O tempo passou. Uma noite, Aixa não pôde dormir. Lembrava-se todos os dias do que tinha visto no palácio das fadas. Pegou no livro misterioso e no poderoso anel e, acompanhada da sua escrava favorita, dirigiu-se à escadaria de pedra. Quando as estrelas atingiram no seu curso o lugar que o ancião havia assinalado, a donzela abriu o livro e leu as palavras mágicas. Tal como naquela outra noite, a montanha começou a abrir-se, até permitir a entrada no paraíso das fadas.
Aixa entregou o livro e o anel à escrava, e hipnotizada com as maravilhas que se lhe deparavam, entrou no palácio encantado. Só que agora não estava ali o mago para a avisar, e Aixa ficou encerrada naquele maravilhoso lugar que tanto havia desejado conhecer.
Quando o sol despontou, ao ver que Aixa não regressava, a escrava foi contar ao emir o que tinha acontecido. Este pegou no livro, disposto a lê-lo todo, se necessário fosse, mas os sinais misteriosos eram incompreensíveis.
— Que se reúnam todos os meus homens e que partam em busca do velho mago — ordenou, então.
Foram imediatamente enviados emissários em todas as direcções, mas o velho não apareceu em parte alguma. Era como se a terra o tivesse tragado. Ben Tahir não se deu por vencido e mandou o exército derrubar a montanha. Em vão. Nem a mais pequena brecha pôde ser aberta na rocha.
Decorreram os anos, até que, um dia, o poderoso emir morreu de desespero junto da montanha misteriosa. Ninguém soube se a donzela moura pôde alguma vez voltar à luz do dia.
Os que hoje passam por aquele lugar não podem deixar de recordar a lenda daquela que, no passado, se deixou deslumbrar pelos próprios caprichos, em lugar de pôr a sua sabedoria ao serviço da bondade e da beleza.
Colecção Heidi
Aladino e a Lâmpada Mágica
Editorial Íbis, Liv. Bertrand
(adaptação)
Nem só de pão
— Mas onde é que ele está? — pergunta o pai. — A escola já acabou há tanto tempo!
A mãe vai, uma vez mais, ver o horário e meneia a cabeça. Percebe-se uma pontinha de medo na sua voz quando diz:
— Geralmente, já cá costuma estar…
— Não — o pai meneia a cabeça. — Não é bem assim. Lembras-te de que ele ainda no outro dia voltou a…
— Tirou a joaninha do passeio e foi pô-la na relva…
— Exactamente — diz o pai. — E não foi há tanto tempo assim que ele…
— Eu sei — diz a mãe. — Que ele queria tirar a minhoca do bico do melro…
— Então e não tirou a borboleta da poça de água?
— Salvou o abelhão de morrer na teia de aranha, queres tu dizer…
— Não interessa — diz o pai. — De qualquer forma, ele ainda não chegou.
“Está a demorar tanto…” pensa a mãe. “Tanto…”
Já tinha ido à janela espreitar primeiro para a rua, na direcção de onde ele costumava vir, depois para o outro lado e ainda para o parque em frente. Mas agora não podia deixar o que estava a fazer na cozinha
— Pronto, vou eu, então — consola-a o pai. — Eu encontro-o já!
“Se não tiver acontecido nada…” pensa a mãe.
Nesse momento, tocam com força à campainha. Os pais acorrem à porta. Matias precipita-se para dentro. O pai e a mãe olham para o filho, depois entreolham-se. O que irá ele dizer? Solta-se uma torrente de palavras:
— Sabem? Sabem? — exclama, ainda ofegante.
— Não —diz o pai afavelmente. — Não sabemos. Infelizmente, nós os dois não sabemos de nada.
— Ali em baixo está uma pomba que só tem uma pata!
Matias lança a novidade com os olhos arregalados de espanto e visivelmente excitado.
— Só tem uma pata, aquela pomba — continua. — A pata direita, e de cada vez que quer chegar à comida, bem… uma mulher estava a dar-lhe comida e vinham sempre as outras todas e eram muito mais rápidas. Eu dizia — xô, xô, — mas só assustava a que tinha uma pata e ela fugia… Voar, voava bem, mas no chão… e as outras… as outras…
As palavras perderam-se. Fica apenas um filho consternado que olha, desesperado, ora para a mãe, ora para o pai, durante muito tempo.
— E foi por isso que vieste tão tarde da escola? — pergunta o pai afavelmente — Outra vez?
Matias diz que sim com a cabeça.
— As pombas com duas patas roubam o pão à que só tem uma. Ela não é suficientemente rápida… é lenta, muito… demasiado lenta…
Os olhos assustados abrem-se ainda mais.
— Vai morrer à fome? — pergunta.
— Não, não vai — diz o pai com voz determinada. — A mãe já vai buscar alguma coisa à cozinha — e deita-lhe um olhar. A mãe defende-se:
— Agora vamos comer, se não, as panquecas…
Mas o pai nem sequer ouviu.
— …já traz pão da cozinha — diz.
— Mas aquecidas não são tão boas!
— …pão da cozinha, e depois vamos lá ver o que podemos fazer com a pomba, não é?
O pai parece muito divertido ao falar. A mãe traz pão da cozinha. Matias meneia a cabeça algumas vezes. Ainda está perturbado com o que acabara de ver.
— …e depois vêm sempre as pombas com duas patas — continua — e a que só tem uma encolhe-se. Salta para o lado, cheia de medo e…
— Onde é que ela está? — quer saber o pai.
Matias conduz os pais até ao banco verde perto dos arbustos. As pombas já estão à espera, sacodem as asas e esvoaçam, debicam o pão que as pessoas lhes deitam, gostam de ir comê-lo à mão.
— Agora vamos ver se juntos conseguimos — diz o pai com energia.
Ah! A pomba que só tem uma pata também aparece. Aproxima-se aos saltinhos, com dificuldade. Matias aponta para ela, saltita de um pé para o outro, aos gritos:
— Ali! Está ali! Estás a vê-la? Aquela ali! Aquela!
Não é mesmo nada fácil ajudá-la. Sozinho, Matias nunca teria conseguido dar-lhe de comer. — Xô, xô! — faz ele. Muitas vão embora, enquanto a pomba doente fica junto do pai. As outras também recebem alguma coisa, mas ela recebe um verdadeiro banquete.
Matias está feliz. Ao sentar-se à mesa para almoçar, diz-lhe o pai:
— Se tivesses vindo logo… quero dizer, se nos tivesses chamado logo depois da escola, não é… não teria sido bem melhor?
Matias pensa e responde:
— É provável. És capaz de ter razão, mas agora, ela também já tem a barriga cheia.
Lutz Besch
Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987
Tradução e adaptação
A Estrela de Erika
Nota da autora
Em 1995, cinquenta anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, encontrei a mulher de que fala esta história. O meu marido e eu estávamos sentados na beira de um passeio em Rothenburg, na Alemanha. Observávamos uns trabalhadores a limparem as ruínas do telhado da Câmara. Na noite anterior, um tornado tinha-se abatido sobre esta bonita aldeia medieval. Havia entulho um pouco por todo o lado. Um velho comerciante disse-nos que os estragos causados por este tornado se assemelhavam aos da última ofensiva dos Aliados durante a guerra. O comerciante entrou na sua loja, e uma senhora, sentada perto de nós, apresentou-se como sendo Erika.
Perguntou-nos se tínhamos vindo fazer turismo naquela região. Quando lhe disse que vínhamos de Jerusalém, onde passáramos duas semanas a fazer pesquisas, confessou-nos, com um suspiro, que desejava muito lá ir mas que não tinha dinheiro para a viagem. Ao ver uma estrela de David pendurada ao seu pescoço, disse-lhe que, no regresso de Israel, tínhamos passado pelo campo de concentração de Mauthausen, na Áustria. Erika confessou-nos que, um dia, tinha tentado visitar o campo de Dachau, mas que não conseguira franquear a porta.
Depois, contou-nos a sua história…
Entre 1933 e 1945, seis milhões de homens e mulheres do meu povo foram mortos. Muitos foram fuzilados. Muitos morreram de fome. Muitos foram incinerados nos fornos ou asfixiados nas câmaras de gás. Eu escapei.
Nasci em 1944. Não sei o dia. Não sei como me chamava ao nascer.
Não sei em que cidade nem em que país nasci.
Não sei se tive irmãos ou irmãs. O que sei é que, apenas com alguns meses, escapei ao Holocausto.
Imagino muitas vezes como seria a vida dos membros da minha família durante as últimas semanas que passámos juntos. Imagino o meu pai e a minha mãe, despojados de todos os seus bens, forçados a abandonar a sua casa, enviados para o gueto.
Talvez depois tenhamos sido expulsos do gueto. De certeza que os meus pais tinham pressa de deixar o bairro rodeado de arame farpado para onde tinham sido relegados, de escapar ao tifo, ao excesso de pessoas, à imundície e à fome. Mas teriam alguma ideia do local para onde estavam a ser enviados? Ter-lhes-iam dito que iam para um local mais acolhedor, onde teriam comida e trabalho? Terão chegado até eles os rumores sobre os campos da morte?
Pergunto-me o que terão sentido quando os conduziram à estação, juntamente com centenas de outros judeus. Amontoados num vagão de transporte de animais. De pé, uns contra os outros, por falta de espaço. Terão entrado em pânico quando ouviram correr os ferrolhos?
De aldeia em aldeia, o comboio deve ter atravessado paisagens campestres estranhamente poupadas ao terror. Durante quantos dias ficámos naquele comboio? Quantas horas os meus pais passaram apertados um contra o outro? Imagino que a minha mãe devia ter-me bem encostada a ela para me proteger dos maus cheiros, dos gritos, do medo, que reinavam neste vagão lotado. Tinha de certeza compreendido que não íamos para um lugar seguro.
Pergunto-me onde estaria exactamente. No meio do vagão? O meu pai estaria junto dela? Ter-lhe-á dito que fosse corajosa? Terão falado do que iam fazer? Quando teriam tomado aquela decisão? Será que a minha mãe disse “Desculpa. Desculpa. Desculpa.”? Terá aberto a custo um caminho por entre aquela mole humana até à janela do vagão? Terá murmurado o meu nome ao embrulhar-me num cobertor bem quente? Terá coberto a minha cara de beijos e dito que me amava? Terá chorado? Rezado?
Logo que o comboio abrandou, ao atravessar uma aldeia, a minha mãe deve ter espreitado pela fresta do vagão. Ajudada pelo meu pai, deve ter afastado o arame farpado que ocultava a abertura. Deve ter esticado os braços para a luz pálida do dia. A única coisa que sei com certeza foi o que aconteceu a seguir.
A minha mãe atirou-me pela janela do comboio.
Atirou-me para cima de um pequeno quadrado de relva, junto de uma passagem de nível. Havia pessoas à espera de que o comboio passasse; viram-me cair do vagão de carga. No caminho que conduzia à morte, a minha mãe lançou-me à vida.
Alguém pegou em mim e levou-me para casa de uma mulher que se ocupou de mim. Que arriscou a vida por mim. Calculou a minha idade e atribuiu-me uma data de nascimento. Decidiu que me chamaria Erika. Deu-me um lar. Alimentou-me, vestiu-me, mandou‑me à escola. Fez tudo por mim.
Casei aos vinte e um anos com um homem maravilhoso. Ele aliviou muita da tristeza que me assaltava com frequência, percebeu o meu desejo de pertencer a uma família. Tivemos três filhos, que hoje têm os seus filhos também. No rosto deles, reconheço o meu.
Dizia-se outrora que o meu povo seria um dia tão numeroso como as estrelas do céu. Entre 1933 e 1945 caíram seis milhões de estrelas do céu. Cada uma delas corresponde a um membro do meu povo, cuja vida foi rasgada, cuja árvore genealógica foi arrancada.
A minha árvore lançou raízes.
A minha estrela ainda brilha.
Ruth Vander Zej/Roberto Innocenti
L’étoile d’Erika
Toulouse, Milan Jeunesse, 2000
(Tradução e adaptação)
A igreja do rei
Era uma vez um rei que quis edificar uma igreja magnífica em honra da Virgem, decretando que ninguém nos seus estados pudesse contribuir para a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia.
Quando o edifício se concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar numa pedra de mármore uma inscrição em letras de oiro, que dizia que só ele, e mais ninguém, tinha levado a cabo aquela obra monumental. Mas na noite seguinte o nome do rei foi apagado da inscrição, substituído pelo de uma pobre mulherzinha do povo. O rei ao outro dia tornou a mandar gravar o seu nome na inscrição, e de novo foi substituído pelo da pobre mulher; à terceira vez, sucedeu o mesmo. O rei, cheio de cólera, ordenou então que lhe levassem a mulher à sua presença.
―Proibi a todos os meus vassalos — disse ele ―que contribuíssem fosse com o que fosse para a edificação desta igreja; vejo que não cumpriste as minhas ordens.
―Senhor — respondeu a velhinha toda trémula — eu respeitei as vossas ordens, apesar da mágoa que sentia por não poder oferecer o meu pequenino óbolo em honra da Virgem, mas julguei não desobedecer a Vossa Majestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno, que eu levava às escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas à construção da igreja.
―O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras de oiro na inscrição do monumento — disse-lhe o rei.
Mas, na noite seguinte uma invisível mão restabeleceu na lápide da igreja o nome do rei, que desde então lá se conserva ainda.
Guerra Junqueiro
Contos para a Infância
Porto, Editora Justiça e Paz, 1987